NAIVASHA, Quênia – Dados obtidos por satélites de observação da Terra revelam que o Lago Naivasha, no Vale do Rift, subiu cerca de 7 metros desde 2010, o que representa um acréscimo aproximado de 40 % em sua área, ou 50 km² de água.
Levantamentos de altimetria espacial indicam que o nível da água se elevou o equivalente a um prédio de dois andares. Imagens da série Landsat, comparando janeiro de 2010 e janeiro de 2026, mostram que bairros inteiros da cidade de Naivasha foram inundados, incluindo delegacias, igrejas, hotéis, restaurantes, subestações elétricas e redes de esgoto.
Impacto humano e econômico
Segundo o hidrólogo Mathew Herrnegger, da Universidade BOKU (Viena, Áustria), residências, estufas de flores e estradas na orla do lago sofreram alagamentos nos últimos anos, desalojando diversas famílias. O lago Oloidien, antes separado, uniu-se ao Naivasha, introduzindo água salina e alcalina no sistema de água doce.
Chuvas mais intensas como principal causa
Herrnegger aponta o aumento da precipitação como fator dominante. Entre 2010 e 2020, a média anual de chuvas cresceu 30 %, enquanto eventos de alta intensidade subiram 318 %. Por se encontrar numa bacia fechada, o lago reage de forma acentuada a variações modestas no balanço hídrico; uma elevação de apenas 0,4 % a 2 % na chuva anual explicaria a tendência observada.
Efeitos sobre a indústria de flores e a vida selvagem
A produção de flores, que gera centenas de milhões de dólares em exportação, perdeu estufas, galpões de embalagem e moradias de trabalhadores. Em vilarejos como Sulmac, Karagita e Kasarani, estufas localizadas a mais de 1 km da água há dez anos agora ficam à beira-lago.
A antiga península Crescent Island, na margem sul, transformou-se em santuário de fauna e ponto de turismo, concentrando centenas de hipopótamos. O contato entre esses animais e pescadores comerciais aumentou com a expansão da lâmina d’água.
Imagem: the TM via science.nasa.gov
Vegetação aquática e fatores geológicos
As imagens de satélite também apontam proliferação de jacinto-de-água, planta que dificulta a pesca e o turismo e pode reduzir a evaporação, contribuindo para o nível elevado. Pesquisadores ainda estudam influências tectônicas no fluxo subterrâneo e o acúmulo de sedimentos que, possivelmente, remodela o fundo do lago.
Para Jamie Shutler, professor da Universidade de Exeter (Reino Unido), é urgente quantificar, por meio de missões espaciais e medições adicionais, quanto o volume de água muda a cada ano e quais processos dominam essa variação, dado o grande número de pessoas que dependem do lago para subsistência.
Com informações de NASA Science
