Astrônomos identificaram a origem de uma formação de ondas de rádio que lembra uma clave de sol ao analisar dados do Observatório de Raios X Chandra, da NASA. O fenômeno, batizado de “Treble Clef”, resulta de uma antiga ejeção de um buraco negro supermassivo seguida pela fusão de dois aglomerados de galáxias.
O estudo, liderado por Andrea Botteon, do Instituto Nacional de Astrofísica (INAF), na Itália, foi publicado nesta quarta-feira (26) na revista Astronomy & Astrophysics. Para decifrar a estrutura, a equipe combinou observações em raios X do Chandra com dados do telescópio alemão eROSITA, detectando gás difuso e quente no local da clave de sol.
A análise revelou que o objeto faz parte de dois aglomerados atualmente em processo de fusão. Esses conjuntos cósmicos, entre as maiores estruturas do Universo, abrigam centenas de galáxias imersas em reservatórios de gás superaquecido.
Dois estágios para formar a “clave”
De acordo com o artigo, a sequência começou com uma violenta ejeção de partículas carregadas e campos magnéticos a quase velocidade da luz, provocada pelo buraco negro supermassivo no centro de um dos aglomerados. Esse “crescendo” cósmico gerou ondas de rádio intensas que depois enfraqueceram à medida que as partículas perdiam energia.
Posteriormente, a colisão entre os dois aglomerados comprimiu ou reenergizou essa nuvem, tornando-a novamente brilhante em rádio. Choques semelhantes aos “booms” sônicos de jatos supersônicos podem ter contribuído para o reacendimento do sinal.
Imagem composta revela detalhes
A forma de clave de sol aparece em vermelho nos dados de rádio captados pela rede europeia LOFAR. Já o gás a milhões de graus, visto em raios X por Chandra e eROSITA, surge em tons azulados. Informações em infravermelho do Telescópio Infravermelho do Reino Unido (UKIRT) completam o mosaico, exibindo principalmente pontos brancos.
Imagem: science.nasa.gov
Para evidenciar a fusão dos aglomerados, os cientistas aplicaram uma técnica que subtrai o formato oval simétrico do gás quente, realçando áreas residuais mais brilhantes à esquerda e à direita do centro. O padrão indica que o impacto ocorreu ao longo desse eixo e que as estruturas se afastam desde então, num evento estimado em centenas de milhões de anos.
A semelhança com a notação musical é resultado de pareidolia — quando formas familiares são percebidas em dados aleatórios —, sem ligação real com música. O programa Chandra é administrado pelo Centro Espacial Marshall, da NASA, enquanto as operações científicas ficam a cargo do Centro de Raios X Chandra, do Observatório Astrofísico Smithsonian.
Com informações de NASA Science
